45 Anos de Irrigação: O Que Todo Projetista Precisa Saber com Marcelo Zlochevsky
Autor: Mylena Duarte de Almeida - Data: 09/09/2026A trajetória de Marcelo Zlochevsky na irrigação começou há cerca de 45 anos, ainda durante sua formação em Agronomia na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde se especializou em Água e Solos e, posteriormente, em Irrigação. Foi em Israel, trabalhando em um kibutz, que teve seus primeiros contatos profissionais com a área.
De volta ao Brasil, Marcelo passou a trabalhar com irrigação agrícola em São Paulo, comercializando equipamentos para culturas como melão e fruticultura. Depois, atuou em Recife e Uberlândia, sempre ligado à agricultura, até migrar para a irrigação de paisagismo.
Essa trajetória permitiu acompanhar uma transformação importante: a irrigação deixou de ser vista apenas como uma solução complementar e passou a ocupar um papel estratégico tanto na produção agrícola quanto na manutenção de jardins e áreas verdes.

A irrigação por gotejamento e a experiência de Israel
A experiência em Israel marcou profundamente sua visão sobre o uso da água. Com recursos hídricos limitados e a necessidade de produzir alimentos em condições adversas, o país desenvolveu tecnologias capazes de aumentar a eficiência da irrigação. Marcelo teve contato com Dan Goldberg, um dos precursores da irrigação por gotejamento, e conheceu a história do desenvolvimento dos primeiros sistemas.
"A descoberta partiu de uma observação simples: uma planta próxima a uma torneira que pingava apresentava desenvolvimento diferente das demais. A partir da investigação do comportamento da água no solo, surgiu o conceito do chamado “bulbo úmido”, que ajudou a impulsionar os estudos sobre o gotejamento."
A partir daquela observação aparentemente simples, começaram as tentativas de reproduzir e controlar o fenômeno. Vieram os microtubos, os estudos sobre pressão e vazão, os tubos enrolados e, posteriormente, os primeiros labirintos que dariam origem aos modernos gotejadores.
A técnica, que tem aproximadamente cinco décadas, permitiu administrar a irrigação mesmo em solos arenosos, argilosos e em condições extremas. Sua eficiência também trouxe uma mudança de perspectiva: enquanto a irrigação por aspersão está sujeita a perdas causadas pelo sol e pelo vento antes mesmo de a água chegar ao solo, o gotejamento consegue alcançar níveis de eficiência muito superiores. A tecnologia desenvolvida em um país de recursos hídricos escassos acabou se tornando uma referência mundial.
A realidade brasileira é bastante diferente. Marcelo define o Brasil quase como um continente quando o assunto é água, solo e clima.
"O país possui grande disponibilidade hídrica e importantes reservas subterrâneas, mas isso não significa que a água esteja sempre disponível onde e quando é necessária."
Para ele, a abundância não deveria ser confundida com permissão para desperdiçar. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, Marcelo defende que o produtor rural está entre os agentes mais conscientes quando se trata da preservação dos recursos naturais. Afinal, é diretamente dependente deles.
"O agricultor percebe a falta de chuva, a degradação do solo e a escassez de água de maneira concreta. Se os recursos naturais deixam de funcionar, a produção também deixa."
Essa preocupação se torna ainda mais urgente diante das mudanças climáticas. Marcelo vê com apreensão a possibilidade de períodos de seca mais severos, impactos na produção de alimentos e até problemas na geração de energia, já que grande parte da matriz energética brasileira depende da disponibilidade de água.
Para ele, a discussão ambiental deixou de ser uma questão distante. A água está no centro de um ciclo que envolve alimentação, energia, produção e sobrevivência.
Do campo para os jardins: quando a irrigação precisou vencer um novo preconceito
A irrigação agrícola foi seu primeiro grande território profissional. No entanto, ao migrar para o paisagismo, Marcelo encontrou um desafio que não era exatamente hidráulico, e sim cultural.
Durante muito tempo, a irrigação de jardins foi tratada como algo secundário. Mangueiras, tubos perfurados e sistemas improvisados eram comuns. Existia a percepção de que irrigar um jardim era simples e que não havia necessidade de um projeto elaborado. Marcelo acompanhou justamente o período em que esse pensamento começou a mudar.
Na agricultura, um dos primeiros obstáculos foi convencer consultores e produtores de que a irrigação deveria ser tratada tecnicamente. No paisagismo, o desafio foi vencer o paradigma de que qualquer pessoa poderia simplesmente instalar um sistema e fazê-lo funcionar.
Depois de décadas trabalhando com irrigação agrícola e mais de uma década dedicada ao paisagismo, Marcelo chegou a uma conclusão que costuma compartilhar em seus cursos:
"A irrigação paisagística pode ser ainda mais complexa que a agrícola.
Em uma grande área agrícola, como uma plantação de café, um mesmo emissor pode atender extensões enormes, com pequenas variações relacionadas ao solo ou à topografia."
"Em um jardim de apenas cem metros quadrados, a situação muda completamente. É possível encontrar, no mesmo espaço, gramados, arbustos, árvores, plantas tropicais e espécies com diferentes necessidades hídricas. Cada uma pode exigir uma estratégia diferente: aspersores, rotores, sprays, gotejadores, emissores de pequeno alcance ou equipamentos de maior alcance."
A setorização: onde a experiência do profissional se torna indispensável
Em um projeto de irrigação paisagística, não basta saber quais equipamentos utilizar. É preciso decidir quais emissores trabalharão juntos, quais áreas deverão ser separadas, como as vazões serão equilibradas e por onde a tubulação poderá passar.
"Um erro de setorização pode significar muito mais do que uma alteração no desenho. Pode significar quebrar pisos, abrir buracos, retirar tubulações e refazer uma instalação inteira."
Marcelo costuma apresentar essa questão em seus cursos como uma das decisões mais importantes de todo o projeto. O software pode calcular pressão, vazão e materiais, mas não conhece todas as particularidades de uma obra. Essas decisões pertencem ao projetista.
É justamente nessa etapa que o HydroLAND se torna uma ferramenta de apoio importante para Marcelo. A possibilidade de testar diferentes emissores, alterar setores, modificar componentes e visualizar as consequências das mudanças torna o processo muito mais dinâmico. O que antes exigia refazer cálculos e desenhos pode ser testado de maneira muito mais rápida.
O software e a inteligência artificial como copilotos
Para Marcelo, a tecnologia tem um papel importante nessa transformação porque consegue tornar visível a complexidade que antes ficava escondida atrás de cálculos e desenhos técnicos. As apresentações geradas pelo HydroLAND ajudam o cliente a compreender aquilo que, explicado apenas por números, seria difícil de visualizar.
O consumidor final não necessariamente sabe o que significa um coeficiente de uniformidade ou uma determinada pressão de trabalho. Ele quer saber se o gramado ficará bonito, se as plantas receberão água adequadamente e se o sistema funcionará. A possibilidade de apresentar o projeto visualmente aproxima o cliente da solução. E essa apresentação também ajuda no processo comercial.
Marcelo destaca ainda a facilidade de testar componentes:
"Se uma alternativa precisa ser substituída, é possível trocar um gotejador por outro emissor, testar um aspersor diferente e observar o comportamento do sistema. Além disso, cálculos hidráulicos que antes eram trabalhosos deixam de ser feitos manualmente."
O profissional ainda precisa compreender conceitos como velocidade da água, pressão, vazão e características dos tubos. Entretanto, não precisa executar manualmente todos os cálculos de perda de carga. O software assume a parte operacional desses cálculos.
Isso libera tempo para que o profissional se concentre naquilo que realmente exige conhecimento: interpretar o projeto, escolher os componentes adequados e tomar decisões. É por isso que Marcelo enxerga o Hydro como um copiloto.
A analogia também se estende à inteligência artificial. Para ele, a IA pode auxiliar, sugerir e acelerar processos, mas o piloto continua sendo o profissional. É ele quem possui experiência, conhecimento e capacidade de interpretar aquilo que a máquina não consegue compreender.
Um jardim construído para colocar a sustentabilidade em prática
Entre os projetos que Marcelo considera mais especiais está o sistema de irrigação de sua própria casa. Ali, ele conseguiu reunir muitos dos conceitos que defende em cursos e palestras sobre sustentabilidade.
"O jardim é irrigado com água de chuva coletada dos telhados da residência. A água passa por um filtro e é armazenada em um reservatório de 10 mil litros instalado sob o deck."
"O sistema é automatizado por um controlador de irrigação. Quando chega o momento da rega, o controlador aciona o solenoide, abre a válvula e provoca a despressurização do sistema. O pressostato percebe a alteração e aciona o pressurizador, mantendo a pressão regulada em três bar. Essa pressão atende aos rotores, bocais rotativos e tubos gotejadores autocompensantes utilizados no sistema."
Marcelo também incorporou a fertirrigação. Um tanque de 120 litros armazena o fertilizante solúvel, que é injetado na rede hidráulica durante a irrigação por meio de um equipamento específico. A aplicação é programada de acordo com a vazão do sistema e realizada a cada três meses durante primavera e verão. As formulações também variam conforme a época do ano.
O projeto representa, em pequena escala, a filosofia que Marcelo construiu ao longo da carreira: utilizar tecnologia para administrar melhor os recursos, mas sempre a partir de decisões tomadas por alguém que entende o sistema.


Depois de 45 anos de trajetória, Marcelo não hesita ao responder se vale a pena entrar no mercado de irrigação. Para ele, se existe interesse genuíno pelo assunto, a resposta é sim. Mas o primeiro investimento não deveria ser uma empresa, um equipamento ou mesmo um software. Deveria ser conhecimento.
A recomendação é estudar, fazer cursos, buscar profissionais experientes e aprender a executar corretamente antes de assumir grandes responsabilidades. Também é importante construir boas parcerias com fornecedores que ofereçam produtos de qualidade, assistência técnica e garantia. E, naturalmente, utilizar ferramentas adequadas.
Nesse ponto, Marcelo destaca a importância do suporte oferecido pelo HydroLAND. Para ele, não basta possuir um software tecnicamente bom: é necessário ter pessoas por trás da ferramenta para ajudar quando surgirem dúvidas e problemas.
Sua experiência com outros softwares de irrigação, inclusive ferramentas que chegou a trazer de Israel para o Brasil, mostrou justamente o quanto a ausência de suporte pode transformar uma boa tecnologia em uma solução difícil de utilizar.
Ao final, sua recomendação reúne três pilares: estudar, construir boas parcerias e utilizar ferramentas adequadas. Mas existe ainda um quarto elemento, talvez o mais pessoal de todos: gostar do que se faz.
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